24/05/2015 08:00 - O Estado de SP
RIO - Quatro cicatrizes de facadas pelo corpo, um pulmão
perfurado e um trauma indelével. Atacado cruelmente por cinco jovens no Aterro
do Flamengo (zona sul) há sete meses, em uma noite de sexta-feira, o auxiliar
de serviços gerais Jorge Felippe Mendonça Leão, de 20 anos, funcionário de uma
loja especializada em equipamento para a prática de triatlo, perdeu muito mais
do que a bicicleta, que comprara dois dias antes.
"Agora só ando de metrô. Eles queriam me matar por nada.
Foram três facadas, eu caí e eles fugiram com a minha bicicleta. Quando
levantei para pedir ajuda, em estado de choque, um deles viu, já longe, saltou
da bicicleta e veio correndo atrás de mim, dizendo: ‘eu não acredito que você
levantou, agora você vai aprender’. Fisicamente, me recuperei e voltei a
trabalhar, mas psicologicamente, não”, contou Leão, que usava a bicicleta como
meio de transporte entre a casa, no Santo Cristo, centro do Rio, e o trabalho,
em Ipanema, trajeto de 14 quilômetros.
O jovem reviveu o drama ao saber do assassinato do médico
Jaime Gold, na Lagoa Rodrigo de Freitas, na terça. Gold era cliente da
Barcellos Sports, loja em que Leão trabalha há um ano, referência na zona sul
por ter sido fundada pelo ex-atleta olímpico Armando Barcellos, considerado uma
lenda do triatlo."Até pensei em comprar uma bicicleta nova, mas depois do que
aconteceu com o Jaime,desisti.”
O modelo de Leão, para passeio, era dos mais baratos
disponíveis na loja, focada em material trazido dos Estados Unidos. Custou R$
1.400. Os mais caros, de fibra de carbono, que podem ter 4,5 quilos – enquanto
as de alumínio pesam o triplo –, com design para alta performance, chegam a R$
80 mil.
Os assaltos constantes têm levado os ciclistas a procurar
cada vez mais os seguros especializados. "Não temos a cultura do seguro no
Brasil, mas ainda assim o número é crescente. Quanto mais casos, mais nos
procuram”, disse Luiz Fernando Giovannini, ele próprio dono de 13 bicicletas,
sócio da corretora Estar Seguro, que cobre principalmente modelos que custam de
R$ 5 mil a R$ 10 mil – no caso das mais simples, o segurado paga 10% do valor
da bicicleta.
Segundo ciclistas ouvidos pelo Estado, os assaltantes de
oportunidade, que procuram qualquer modelo, para revenda rápida no mercado
negro, atuam em áreas de lazer populares na cidade, como o Aterro e a Lagoa. Já
aqueles com olhar treinado, cuja preferência são as bicicletas para competição,
preferem os pontos frequentados por atletas, caso de estradas e da Vista
Chinesa, mirante no Parque Nacional da Tijuca – áreas em que o policiamento é
pouco ou nenhum.
André Melo, de 40 anos, vendedor da Barcellos Sports,
reconheceu o corpo ensanguentado de Jaime Gold nas imagens de TV, pelos acessórios
e pela roupa: o boné, a viseira e o conjunto esportivo de compressão para
triatlo haviam sido comprados lá, por R$ 1 mil. "A roupa custava mais do que a
bicicleta, que não deve valer mais do que R$ 500”, afirmou.
Pesar. Morador de
Ipanema, Jaime era conhecido na loja por ser bem - humorado e agitado, e por
gostar de pedalar a caráter. O clima na Barcellos é de pesar pelo assassinato
do médico. Gerente da loja, Cesar Sardenberg Junior, de 38 anos, lembra que só
existe o mercado paralelo porque há ciclistas que preferem comprar produtos
mais baratos, sem certeza da procedência."Tenho me manifestado contra
classificados na internet e grupos de compra e venda. Quem compra tem de exigir
nota fiscal. O que aconteceu com o Jaime é diário, o diferente foi matarem. A
gente não anda na ciclovia, prefere estar no meio dos carros e ser atropelado a
ser assaltado. Isso é uma máxima do ciclista do Rio.”
Sem negociação. Dono de uma mountain bike de R$ 4 mil, seu meio de transporte diário, Kiko Limmah, ator e cinologista, foi assaltado em 1996 e lembra que conseguiu negociar com o assaltante a entrega do relógio e dos documentos. "Hoje não é mais assim. Fiquei 17 anos sem comprar uma bike, mas perdi o medo, mesmo tendo um amigo que foi esfaqueado há seis meses. Agora, não sei mais."
O Globo
A pé ou de bicicleta, um ‘não’ à violência
Corrida,
missa campal e bicicleata marcam protestos contra morte de médico na orla da
Lagoa
Cerca de 200 participantes da Corrida da Paz se concentram
na Lagoa, em um dos protestos que os cariocas fizeram ontem contra a morte do
médico Jaime Gold, esfaqueado terça-feira quando pedalava. As manifestações
prosseguiram com missa campal, perto do Corte do Cantagalo, e uma "bicicleata”
pela cidade. Para especialistas, por trás dos ataques com facas, há psicopatas
e uma banalização do mal. Primeiro veio a violência. Depois, os pedidos de paz.
Após uma série de oito ataques a faca que culminaram com a morte do
cardiologista Jamie Gold, quarta-feira, moradores e ciclistas realizaram ontem
homenagens às vítimas e protestaram contra a violência no Rio. As
manifestações, que começaram na Lagoa Rodrigo de Freitas — local da morte do
médico —, se estenderam até o Palácio Guanabara, em Laranjeiras, e à Prefeitura
do Rio, no Centro.
Pela manhã, cerca de 200 pessoas se reuniram na Lagoa para
participar de uma corrida pela paz. Vestidas de preto, fizeram um minuto de
silêncio em homenagem a Jaime Gold.
Em seguida, mais de 100 ciclistas se reuniram em missa
campal, na altura do Corte do Cantagalo. O grupo seguiu nas ‘magrelas’ até o
Palácio Guanabara. Lá, encontrou-se com familiares de Gilson da Costa Silva, de
13 anos, e Wanderson Jesus Martins, de 24, mortos terça- feira durante operação
policial no Morro do Dendê, na Ilha do Governador.
Os manifestantes chegaram a fechar, por cerca de 10 minutos,
o trânsito da Rua Pinheiro Machado, onde deitaram as bicicletas e pintaram o
chão com tinta vermelha, referência ao sangue das vítimas da violência. Em
seguida, parte dos ciclistas repetiu o mesmo ato em frente à sede da prefeitura
do Rio, na Cidade Nova.
VÍTIMA PARTICIPA DE ATO
Entre os manifestantes, na Lagoa, estava o franco-brasileiro
Victor Didier, de 19 anos, que voltou à região pela primeira vez após ser
esfaqueado no dia 19 de abril. Victor teve os dois pulmões perfurados e chegou
a ficar 15 dias internado no CTI do Hospital Copa D’Or. O estudante de
engenharia afirmou estar chocado com a morte do médico.
— Imaginava que o meu caso serviria de exemplo para o
reforço do policiamento. A sensação é de que nada foi feito para mudar essa
situação — observou.
Os protestos surtiram efeito na Lagoa. Duplas de policiais
em bicicletas reforçaram desde a manhã a segurança no bairro. Carros da PM
também faziam patrulhamento ao longo das avenidas Epitácio Pessoa e Borges de
Medeiros. Uma das viaturas estava baseada a poucos metros da Curva do Calombo,
onde o médico foi atacado.
Apesar de negar participação no assassinato do cardiologista
Jaime Gold, o adolescente de 16 anos suspeito do crime foi reconhecido por uma
testemunha como o responsável por um ataque a faca no dia 30 de abril, na Zona
Sul. Para a polícia, o reconhecimento mostra que o jovem mentiu ao afirmar que
havia parado de praticar crimes há dois meses.
Na noite de sexta-feira, policiais civis apreenderam 34 facas, escondidas em diferentes pontos na Praça Nossa Senhora do Amparo, em Cascadura, na Zona Norte. Policiais levaram 49 pessoas que estavam no local para averiguação. Um homem, Marcos Santos Moreira, era foragido e foi preso.