22/05/2015 07:16 - Diário do Nordeste
Quixadá. A maioria dos moradores das cidades do Interior do
Ceará teria dificuldade para chegar a algum lugar se não fosse um serviço de
transporte que surgiu na informalidade e procura se organizar no Estado, o de
mototáxi. Além da capital cearense, Caucaia, Maracanaú e Maranguape, na Região
Metropolitana de Fortaleza (RMF); apenas Juazeiro do Norte e Crato, na região
do Cariri; e Sobral, na Zona Norte, contam com linhas regulares de ônibus entre
os bairros.
No restante do Estado, quem não possui transporte próprio e
não quer demorar a chegar ao seu destino tem o serviço de aluguel sobre duas
rodas como principal opção.
Ainda não existem dados oficiais no Estado, mas de acordo
com os representantes da categoria, a população das 184 cidades do Estado do
Ceará tem esse tipo de transporte de aluguel como alternativa.
Para os moradores, ao longo dos últimos anos, se tornou uma
necessidade cotidiana, a ponto de ser reconhecido como utilidade pública, ao
mesmo tempo propiciando milhares de empregos. Por esses motivos, a maioria dos
mototaxistas está procurando se organizar e se regulamentar para oferecer um
serviço de qualidade para os usuários.
Quixadá, no Sertão Central, é um exemplo. Preocupado com a
imagem de quem realmente é profissional desse tipo de serviço, o presidente da
Associação dos Mototaxistas de Quixadá (AMOQ), Cristiano Lopes, está procurando
conscientizar quem está exercendo a atividade na clandestinidade a se regulamentar
de acordo com a Lei e a se profissionalizar, com a adequação da motocicleta às
normas exigidas, como também com cursos de formação para os condutores.
Atualmente, apenas 100 deles estão associados à AMOQ. Entretanto, outros 900
estão irregulares na cidade, estima.
Na avaliação do líder sindical, o Município já está
começando a cumprir o seu papel, apesar da falta de fiscalização por parte do
órgão municipal de trânsito. O serviço já foi regulamentado em Quixadá, em
2013. Com ele, foi inclusive definido o número de vagas para mototáxi, quatro
para cada 250 habitantes.
Com a norma, tendo como base os levantamentos do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 1.280 profissionais
regulamentados poderão circular pela cidade. O custo do serviço, por cada
deslocamento na área urbana é de R$ 3,00.
Nas rodovias
Diariamente, milhares de moradores da cidade de Iguatu, na
região Centro-Sul do Ceará, utilizam o mototáxi para o transporte de pessoas e
de produtos. O serviço se espalhou rapidamente e chegou também aos pequenos
centros urbanos do Interior. Até nas rodovias que dão acesso aos distritos mais
povoados e vilas rurais há mototaxistas à espera de clientes que chegam de
ônibus ou de vans.
"Se não fosse o mototáxi, não sei como seria minha
vida, pois pega meu filho na escola, traz almoço e lanche", disse a
lojista Cláudia Oliveira. Sem transporte público regular, os mototaxistas
conduzem os moradores do centro para a periferia e vice-versa. Somente em
Iguatu, são registrados, na Prefeitura, cerca de 600 profissionais, que seguem
exigências legais de cadastro em um posto, colete com numeração e placa
vermelha. As áreas de estacionamento são demarcadas pelo Demutran. As motos
ainda não são padronizadas, mas recebem adesivos com identificação. A corrida
em média custa R$ 5,00.
Em Russas, no vale do Jaguaribe, o grande desafio da classe
é combater o serviço ilegal de transporte de passageiros em motocicletas. De
acordo com o presidente do Sindicato dos Mototaxistas de Russas, Cosmo Silva, o
número de ilegais diminuiu muito, mas ainda segue como um desafio da associação
em parceria com o Departamento Municipal de Trânsito.
Cadastro
Na cidade de 75 mil habitantes, apenas 225 mototaxistas
estão cadastrados na Prefeitura, onde 180 integram o Sindicato. "Nosso trabalho
tem sido feito para que o serviço seja ofertado de forma segura e dentro da
legalidade para os nossos passageiros", destacou. Sobre a perspectiva de
crescimento da categoria, Cosmo ressaltou que o aumento da oferta acompanha o
populacional, sendo abertas novas vagas a cada estimativa do IBGE.
Representantes da Federação Interestadual das Regiões Norte
e Nordeste dos Trabalhadores em Transportes de Mototaxistas, Motoboys,
Moto-fretes e Taxistas (Fenordeste) no Ceará estão visitando as cidades do
Interior em busca da regulamentação dos mototaxistas.
Um dos articuladores da Fenordeste no Estado é Valteclar
Viera. Segundo ele, atualmente 31 mil motociclistas estão exercendo esse ofício
nas cidades cearenses, mas apenas 18 mil estão legalizados. Além de Crateús,
onde o serviço teve origem no Brasil, ele citou Sobral como um dos municípios
mais organizados do Interior em relação a essa atividade profissional.
FIQUE POR DENTRO
Pioneirismo no País foi da cidade de Crateús
O primeiro serviço de transporte alternativo de pessoas em
motocicletas, conhecido popularmente como mototáxi, surgiu na década de 1990,
em Crateús, cidade localizada na região dos Inhamuns. A ideia foi trazida por
um bancário que tinha acabado de chegar de Londres. Ele se juntou à proprietária
de um pequeno restaurante e montou o primeiro ponto no Brasil. Logo, o mototáxi
ganhou fama e espaço, e, em pouco tempo, várias cidades do Ceará adotaram esse
sistema. A ideia se espalhou por todo o País. Atualmente, cerca de 47% dos
municípios brasileiros contam com esse serviço. No Nordeste, esse número pode
chegar a 78%.
Mais informações:
Fenordeste - Ceará
Rua Vicente Spindola, 822
Fortaleza
(85) 3103-0001
AMOQ
Rua Clarindo de Queiroz, 102
Quixadá
(88) 9794- 7974
Serviço de Sobral é
considerado modelo
Sobral. Aproximadamente 700 motociclistas fazem parte do
sistema de transporte público desta cidade, considerado um dos sistemas de
mototaxistas mais organizados do Interior. Além deles, topics, ônibus e um
Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) compõem o sistema de transporte de Sobral.
Cadastrados pela Prefeitura, cada mototaxista recebe capacete, bata e tem
direito a um reserva, que também deve ser indicado no ato do cadastramento.
Periodicamente, todos devem ser recadastrados, segundo o titular da Secretaria de
Conservação e Serviços Públicos, Jorge Trindade.
De acordo com ele, o último ocorreu em fevereiro,
"visando renovar o cadastro, a fim de oferecer segurança aos profissionais
e passageiros". No ato do recadastramento são exigidos Certificado de
Registro e Licenciamento do Veículo (CRLV), Carteira Nacional de Habilitação
CNH, comprovante de endereço, certidão de quitação eleitoral, certidão criminal
da Justiça Federal e Estadual, comprovante de pagamento da taxa da Prefeitura
Municipal de Sobral e certificado de conclusão do curso de direção defensiva
ministrado pelo Departamento Estadual de Trânsito do Ceará (Detran-CE).
A passagem tabelada é de R$ 2,80 para dentro da cidade, mas,
para fora da área urbana, os valores são negociados entre motorista e
passageiro. Quando esse valor não é respeitado, o passageiro tem um número na
Prefeitura para que seja feita a denuncia. "Sendo apurada a veracidade do
fato, e, dependendo do tipo de infração, o mototáxi pode ser advertido e até
ter seu cadastro cancelado", explica Trindade.
Piratas
Um dos grandes desafios é o uso de mototáxis piratas, que
cobram mais barato para ter a preferência de clientes, por vezes moradores de
bairros mais distantes do Centro. Roberta Sousa, moradora da Cohab Três,
afirma: "Os mototaxistas licenciados pela Prefeitura sempre querem
dinheiro a mais para uma corrida do Centro pra cá. Isso quando querem vir.
Dependendo do dia, eles não fazem a corrida, mesmo que se pague a mais".
Alguns moradores de outros bairros preferem usar dos
mototáxis piratas. De acordo com eles, os irregulares aceitam todas as corridas
pelo preço tabelado e tratam melhor os passageiros. São mais fáceis de
encontrar, pois fornecem o número do telefone celular. "Quando eles aceitam
uma corrida para longe, aceitam com má vontade. Acabam ultrapassando o limite
de velocidade e avançando sinais vermelhos", comentou uma moradora do
bairro Sinhá Sabóia que não quis se identificar.
Quando denunciado, o motociclista suspeito é abordado, autuado
em flagrante e levado para a Delegacia Civil, onde é feito um Termo de
Ocorrência Circunstanciada (TCO). Após o procedimento, responde no âmbito
jurídico. De acordo com as denúncias, os principais pontos dos mototaxistas
piratas ficam nas proximidades da Fábrica Lassa; o Posto 13, na BR-22; e
próximo ao Pinheiro Supermercado.
De acordo com o Sindicato de Mototaxistas de Sobral, segundo
Lei Municipal, eles trocam obrigatoriamente de moto a cada quatro anos e
participam de cursos de capacitação. Também é obrigatório que não tenham
passagem pela Polícia.