15/05/2018 08:11 - O Globo
RIO - O ônibus da linha 380 (Curicica-Candelária) encosta no ponto final, no Centro, por volta das 11h. Desconfiado, um passageiro confere o letreiro. Quase 20 minutos depois, o mesmo veículo deixa o local, com destino à Zona Oeste, mas com duas diferenças: seu número passa a ser 390, e, em vez de seguir pela Avenida Brasil e pela Linha Amarela, vai passar pela Estrada Grajaú-Jacarepaguá.
O que ocorre com a 380 — ou 390 — é mais um exemplo do descaso das empresas de ônibus em relação aos passageiros. Como O GLOBO mostrou nesta segunda-feira, das 375 linhas regulares da cidade, 229 (61%) circulam com menos veículos do que deveriam. Não bastasse isso, usuários ainda sofrem com as “linhas mutantes”, que mudam de numeração e itinerário ao longo do dia, confundindo a população.
No caso da 380, um fiscal da empresa informou que a alteração no itinerário é feita de acordo com a necessidade da operação, e pode ocorrer nos dois sentidos. A mudança no trajeto, no entanto, não é o único problema da linha, que funciona precariamente e com poucos veículos. Segundo o funcionário, a 380 tem apenas três veículos em circulação, mas, de acordo com uma planilha da prefeitura, deveria contar com 24.
— Você nunca sabe a numeração nem o itinerário do ônibus. Já não bastam as alterações de trajeto que ocorreram nos últimos tempos? Agora tem mais essa — reclamou o passageiro Elias Antoine, antes de embarcar no 390.
Outro exemplo de “linha mutante” é a 440 (Caju-Copacabana). De acordo com rodoviários e passageiros, ela só roda pela manhã, e, à tarde, é transformada em 463 (São Cristóvão-Copacabana). A linha, que faz parte do Consórcio Intersul, deveria ter cinco carros circulando diariamente, segundo dados disponíveis no site Transparência da Mobilidade, da Secretaria municipal de Transportes.
— A linha praticamente não existe mais. Ela só funciona de manhã — conta um funcionário da empresa de ônibus.
No caso da 181 (Rodoviária-São Conrado), nem os fiscais se entendem. Enquanto uns dizem que a linha acabou, outros informam que ela só faz uma viagem pela manhã. Uma placa no terminal Padre Henrique Otte, perto da Rodoviária Novo Rio, cita a linha, que está mais para “fantasma”.
Em nota, a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) informou que "o contrato prevê às empresas a gestão da frota, o que inclui a mudança das linhas realizadas por diferentes veículos (um ônibus não é 'preso' a determinada linha, podendo haver variação de linha no mesmo veículo), desde que não deixe a população desatendida por determinado itinerário. O que é passível de punição, neste contexto, é se constatado inoperância de linhas ou circulação com frota abaixo do determinado. Sobre o GPS, o operador precisa atualizar o equipamento, caso o ônibus em questão passe a cumprir outra linha/itinerário."
O Consórcio Intersul informou, também por nota, que "a linha 440 (Caju—Copacabana) opera em horários pré-determinados conforme autorização da SMTR. Com relação à linha 226 (Grajaú—Carioca), o itinerário tem sua operação mantida. Ambas as empresas desconhecem a troca de itinerário depois de iniciada a viagem. Caso isso ocorra, o GPS do coletivo registra a ocorrência e o motorista pode ser punido administrativamente caso seja comprovado o desvio de rota. Quanto às linhas 181 (Rodoviária—São Conrado) e 218 (Vila Isabel—Candelária) estas são linhas que têm a operação impactada por conta da crise econômica enfrentada pelo setor. O sindicato e a Secretaria Municipal de Transportes estão trabalhando para que a situação seja regularizada o mais brevemente possível."
O Consórcio Transcarioca, em nota, também disse desconhecer a troca de itinerário das linhas 380 e 390 e explicou que o motorista pode ser advertido caso adote um trajeto diferente do estabelecido.
