25/04/2014 08:05 - Valor Econômico / O Estado de SP
Leia: Montadoras
reforçam paradas de linhas - Valor Econômico
A redução na produção de automóveis já provoca demissões na
cadeia do setor automotivo. As dispensas são pulverizadas e atingem
principalmente trabalhadores das pequenas empresas, mas compõem um mercado de
trabalho radicalmente diferente daquele do início do ano passado em todo o
setor automotivo. De janeiro a março de 2013, a indústria de material de
transporte (segmento que envolve montadoras, autopeças e outros subsetores no
Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) abriu 13,9 mil novas vagas. No
mesmo período deste ano, o setor fechou 1.071 postos de trabalho em todo país,
aponta o Caged.
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Em Gravataí e Porto Real o número absoluto de corte de
empregos é menor, mas proporcionalmente o impacto é maior. Na cidade gaúcha que
sedia a fábrica da General Motors o saldo negativo entre admissões e demissões
indica o fechamento de 472 vagas, equivalente a 4,9% do total de pessoas
empregadas pelo setor em Gravataí. Em Porto Real, o saldo negativo de 371
empregos eliminados representa 6% do total de trabalhadores empregados no setor
no fim de dezembro.
As demissões são pulverizadas e atingem principalmente
pequenas empresas, segundo os sindicatos de trabalhadores. Em alguns casos, o
movimento ainda não foi percebido pelas entidades. No Sindicato dos
Metalúrgicos de Gravataí, por exemplo, a direção considera a situação do
mercado de trabalho "estável", diz o diretor Valcir Ascari. A
informação de que o Caged indica fechamento de 472 vagas na indústria de
material de transporte do município foi recebida como novidade. "Não
sentimos essa redução", disse Ascari.
Outra diferença na base sindical gaúcha foi o acordo
salarial. O sindicato negociou com a General Motors um reajuste de 7%, o que
significa aumento real de 1,3% pelo Indice Nacional de Preços ao Consumidor
(INPC), percentual inferior ao dos últimos dois anos quando superou 2%.
Na base dos metalúrgicos do ABC (São Bernado, Diadema, Rio
Grande da Serra e Ribeirão Pires), levantamento do próprio sindicato indica que
foram fechadas 1.012 vagas no setor automotivo no primeiro trimestre, situação
bem diferente das 100 vagas criadas em igual período de 2013. "Esse
movimento vem das pequenas empresas que sentem redução dos pedidos das
montadoras e não possuem fôlego para segurar os trabalhadores", diz Wagner
Santana, secretário-geral do sindicato.
Nas montadoras e grandes autopeças, diz Santana, outros
expedientes foram colocados em prática, como programas de demissão voluntária,
licença remunerada ou "layoff" para evitar a demissão de funcionários
qualificados. "Mas já sentimos o sinal amarelo no setor", resume o
sindicalista.
Em outra base metalúrgica do ABC, a cidade de São Caetano,
onde está a fábrica da General Mortos, foram fechados 407 postos de trabalho na
indústria de material de transporte no primeiro trimestre. De acordo com o
presidente do sindicato local dos metalúrgicos, Aparecido Inácio da Silva, esse
número envolve boa parte dos 348 trabalhadores que aderiram ao Programa de
Demissões Voluntárias (PDV) da GM. "As outras demissões são espalhadas e
essa situação reflete a instabilidade da economia, o aumento da taxa de juros,
a retração do consumidor", diz ele, criticando o que ele classifica como
"falta de rumo do governo na área econômica".
Os dados do Caged mostram que boa parte dos trabalhadores
que aderiram ao PDV da GM aproveitaram a situação para pedir aposentadoria. Do
total de 407 vagas eliminadas de janeiro a março, 337 desligamentos decorreram
de pedidos de aposentadoria. Outra mudança no mercado de trabalho neste início
de ano é a redução do número de trabalhadores que pede demissão. No ano
passado, eles responderam por 15% dos desligamentos do setor na cidade de São
Bernardo, percentual que caiu para 7% neste início de 2014.
O coordenador da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) na
região metropolitana de São Paulo, Alexandre Loloian, chama atenção para outra
mudança no comportamento do emprego no ABC paulista. A pesquisa, feita em conjunto
pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) e Departamento
Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), aponta que nos
últimos 12 meses voltou a aumentar o número de trabalhadores sem carteira e por
conta própria na região, enquanto o total de assalariados com carteira assinada
caiu 2%. Na comparação com fevereiro de 2013, o total de trabalhadores
contratados sem vinculo formal subiu 7% e o de autônomos, 17%.
"Esse comportamento foge do padrão dos últimos anos e o
aumento dessas vagas reflete a insegurança dos empregadores e a procura por
outra ocupação para evitar o desemprego", diz Loloian. Na região, a taxa
de desemprego está se comportando, por enquanto, dentro do padrão. Ficou em
10,3% em fevereiro, acima dos 9,5% de igual mês do ano passado. Na indústria,
foram fechadas 34 mil vagas desde dezembro, das quais seis mil no setor
metal-mecânico, mas esse movimento é normal no início do ano, pondera Loloian.
Santana, dos Metalúrgicos do ABC, lista três frentes de
negociação para tentar minimizar - e conter - o efeito negativo da queda da
produção sobre o emprego. Um programa de renovação da frota de caminhões (com
crédito para a compra de caminhões novos), crédito para automóveis com apoio
dos bancos públicos (no ano passado, cita ele, 1,6 milhão de pedidos de crédito
foram negados e se apenas 20% deles fossem atendidos poderia se ter um mercado
extra de 300 mil veículos) e novas regras de proteção do emprego, com ampliação
do uso do chamado "layoff". Pelas regras atuais, diz ele, o uso desse
instrumento está limitado a cinco meses e ao valor do seguro-desemprego.
O sindicato, junto com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), sugeriu ao governo criar um fundo com os recursos da multa adicional de 10% sobre o saldo do FGTS (que já existe) para compensar parte das despesas que as empresas têm no afastamento de um funcionário. Santana explica que no caso de uma redução de jornada de 20%, esse fundo poderia ser usado para evitar redução de salários. No caso, o fundo custearia parte da redução dos salários, que não teriam o corte proporcional de 20%.
Prefeituras monitoram
situação, mas "sem alarde"
Todo quadro de desaceleração no setor automotivo - e não
apenas as demissões - preocupa as prefeituras do ABC paulista, principal polo
do setor no país. "Mas é uma preocupação sem alarde porque existem
movimentos que contrabalançam essa situação", diz o secretário de Desenvolvimento
Econômico, Trabalho e Turismo da prefeitura de São Bernardo do Campo, Jefferson
José da Conceição. "Ainda vemos um movimento localizado, com geração de
empregos em outras áreas", acrescenta o secretário de Trabalho, Emprego e
Economia Solidária de Santo André, Cicero Martinha.
Conceição, de São Bernardo, diz que, além das demissões
localizadas, as informações de férias coletivas, suspensão temporária dos
contratos de trabalho e programas de demissão voluntária criam um quadro de
apreensão. Ele pondera, contudo, que a prefeitura tem participado das
negociações para "ajustar" o programa Inovar-auto, agora com foco em
autopeças. Uma das discussões, diz ele, é buscar medidas de comércio exterior,
mas "dentro da legalidade das regras da Organização Mundial do Comércio".
Sem dar detalhes, ele sugere que estão sendo discutidas medidas que impeçam a
importação indiscriminada de autopeças.
Fora do campo das medidas federais, ele lista obras públicas
municipais e o investimento da sueca Saab, que ganhou a concorrência para o
fornecimento de caças ao Ministério da Aeronáutica, concorrência acompanhada de
perto pelo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), ex-presidente do
sindicato local dos metalúrgicos.
Cicero Martinha, de Santo André, observa que a cidade reúne mais empresas de autopeças e foi afetada diretamente pelo fim de produção da Kombi, do Fiat Uno e do Gol geração IV. Apesar das demissões no setor de material de transporte, diz ele, os centros de atendimento ao trabalhador (onde a Prefeitura faz a ponte entre empresas que oferecem vagas e desempregados) não têm registrado procura acima do normal. "Não percebemos aumento de desempregados", diz ele.
Sistemistas evitam
demissões, mas param linhas
As vendas estão em queda e a ociosidade, em alta. Mas as
empresas da indústria de veículos sabem que ficará caro treinar novamente
operários quando o mercado voltar a crescer. Por isso, enquanto atravessam a
zona de turbulência, as grandes multinacionais do setor adiam o quanto podem a
possibilidade de demissões em massa.
Praticamente desde o início do ano, esse cuidado vem sendo
tomado por montadoras a partir de medidas de flexibilização como paradas
pontuais de linha, antecipação de férias e afastamento temporário de
trabalhadores. Agora, iniciativas do tipo começam a ser adotadas pelos maiores
sistemistas de autopeças.
Os ajustes de produção já acontecem, ou estão sendo
negociados, em multinacionais como Continental, Cummins, Meritor e Benteler,
além dos fabricantes de implementos rodoviários de Caxias do Sul (RS) Randon e
Guerra.
Como quase 70% das vendas de autopeças vão para as
montadoras, num sistema de produção de baixos estoques, as paradas nas fábricas
de veículos, inevitavelmente, se replicaram rapidamente na cadeia de fornecedores.
E como cada emprego nas montadoras equivale a cerca de quatro vagas na cadeia
de suprimentos, a situação causa grande preocupação quanto à manutenção dos
postos de trabalho no caso de a crise se prolongar por mais tempo. "O que
é resfriado nas montadoras pode ser pneumonia para uma empresa de
autopeças", afirma Jorge Nazareno, presidente do sindicato dos
metalúrgicos de Osasco (SP), onde a fabricante de eixos Meritor vai interromper
a produção por até 16 dias entre abril e julho.
No sul do Rio de Janeiro, a Benteler, que monta sistemas de
suspensão, fechou um turno de trabalho após sua cliente na região, a Peugeot
Citroën, cortar em quase 30% a produção de carros. No ABC paulista, a
Karmann-Ghia, que fornecia peças à aposentada Kombi, tem 250 trabalhadores
afastados da produção desde março.
A multinacional alemã Continental, um dos três maiores
grupos de autopeças do mundo, também decidiu diminuir o ritmo para se adequar
aos cortes na produção de carros. Entre 30 de abril e 11 de maio, a empresa vai
antecipar as férias coletivas de 250 operários - ou cerca de 25% do efetivo -
da linha de fundição na fábrica de freios hidráulicos em Várzea Paulista, no
interior de São Paulo.
Segundo Manuel Mota, diretor de vendas do grupo, a
iniciativa tem o objetivo de ajustar a força de trabalho sem que sejam feitos,
pelo menos por enquanto, cortes de pessoal. "Vamos esgotar todos os
recursos legais para preservar os empregos", diz o executivo.
A Cummins, fabricante de motores a diesel, planeja dar, em
junho, férias coletivas de doze dias na fábrica de Guarulhos, na Grande São
Paulo. Segundo informações de dirigentes sindicais da região, as férias vão
acontecer entre os dias 12 e 23 de junho, mas a empresa prefere não comentar
isso porque os ajustes na linha, segundo ela, ainda estão em negociação.
Os sindicalistas contam que, afetada pela queda nas
encomendas da indústria de veículos pesados, a Cummins reduziu em 13 mil
motores a programação da produção deste ano, que estava em mais de 70 mil
unidades.
Fabricantes de carretas, instaladas em caminhões para o
transporte de cargas, também estão cortando a produção diante da queda de 11,3%
das vendas de veículos pesados. A Randon, a maior do setor, adiou o retorno dos
funcionários do feriado de Páscoa e Tiradentes ao parar a fábrica em Caxias do
Sul no último dia 22. Outra paralisação está programada para 2 de maio, na
emenda do feriado do Dia do Trabalho. A empresa informa que o objetivo é
regularizar os estoques e diz que as paradas em dias úteis - ou seja, fora dos
feriados - não serão remuneradas.
Outra importante fabricante de implementos, a Guerra, também
de Caxias do Sul, vem desde março operando em esquema de semana curta de
trabalho, com um dia a menos de produção. Ricardo Mendes, gerente de recursos
humanos da Guerra, uma das três maiores da indústria de reboques, diz que ainda
tem outras alternativas de ajuste, como antecipar as férias coletivas.
"Temos essa carta na manga se for necessário", afirma.
O Estado de SP
Fiat e Volkswagen dispensam 2,2 mil trabalhadores
SÃO PAULO - Fiat e Volkswagen, duas das maiores fabricantes de automóveis, dispensaram mais 2,2 mil funcionários para adequar a produção à demanda. No acumulado do ano, até quarta-feira, as vendas de veículos registram queda de 5,3% em relação ao mesmo período de 2013 (para 211 mil unidades). As exportações para a Argentina, principal cliente externo do setor, caíram mais de 30%.
A partir do dia 5, a Volkswagen vai suspender o contrato de
trabalho (sistema chamado de lay-off) de 900 trabalhadores na fábrica de São
Bernardo do Campo (SP) e de 400 da unidade de São José dos Pinhais (PR) por
cinco meses.
A Fiat deu férias coletivas de dez dias para 900 operários
em Betim (MG) nesta semana. A empresa já tinha concedido férias por 20 dias a
outros 800 funcionários no dia 14. Ao todo, deixarão de ser fabricados nos dois
períodos 6,2 mil unidades dos modelos Bravo, Doblò, Idea, Linea, Palio, Grand
Siena e Palio Weekend.
A fabricante de caminhões Scania, também de São Bernardo,
antecipou de junho para 12 maio as férias coletivas de 15 dias para cerca de
3,8 mil trabalhadores.
"O primeiro trimestre não foi bom em vendas e soma-se a
isso o fim da produção da Kombi e do Gol G4 no fim do ano para justificar o
excesso de pessoal", afirma o secretário-geral do Sindicato dos
Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana. "A empresa está administrando esse
excedente com férias e lay-off."
Santana ressalta que não há previsão de demissões em massa.
Na fábrica do Paraná, 400 funcionários também entram em lay-off no dia 5,
somando-se a outro grupo de 150 que já está nesse regime desde março, com
previsão de retorno no fim de maio, quando outra equipe de 150 pessoas será
dispensada.
No lay-off, o funcionário recebe o salário integral, mas R$ 1,3 mil é pago pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e a diferença pela empresa.
Em nota, a Volkswagen informa que, "a exemplo de outras montadoras no País, está fazendo uso de ferramentas de flexibilização para adequar-se à demanda atual do mercado". Também afirma que mantém "confiança no crescimento do mercado brasileiro e mantém seu plano de investimentos de R$ 10 bilhões até 2018".
A Scania informa que decidiu antecipar as férias "em razão do desaquecimento do mercado brasileiro e argentino".
Demissões. Outras
montadoras e fabricantes de autopeças como Agrale, International, Randon e
Guerra, todas do Rio Grande do Sul, deram férias coletivas ou folgas aos
funcionários nos últimos dias.
Na Grande Curitiba (PR), onde a Renault também cortou
produção, a fabricante de eixos AAM do Brasil demitiu ontem 100 funcionários,
de um total de 900. "A empresa nem nos procurou para negociar, por isso
vamos ao Ministério Público", afirma o dirigente do sindicato dos
metalúrgicos, Jamil Davila. Segundo ele, a empresa fornece peças para a fábrica
da Volkswagen na Argentina.
Montadoras, autopeças e sindicalistas negociam com o governo
federal a criação de um sistema nacional de proteção ao emprego para ser
adotado em épocas de crise. Seria uma alternativa ao lay-off, normalmente usado
só por grandes grupos. A base da proposta é um programa adotado na Alemanha
desde os anos 50.
Paralelamente, governo e montadoras do Brasil e da Argentina discutem uma linha de financiamento para retomar o comércio bilateral. Também já há conversas nos bastidores para a suspensão da alta do IPI para carros prevista para julho.