Um ano à espera de justiça

07/05/2013 06:59 - Correio Braziliense

Fernando (E), Marcus, Michelle e William, familiares de Maria dos Reis e Priscila Santos: iniciativa para a conscientização dos motoristas

 

Um ano após o grave acidente que matou mãe e filha na DF-001, a família voltará ao local da tragédia para fazer uma campanha a favor da lei seca. Em 13 de maio, os parentes acompanharão uma blitz da Polícia Militar na altura do balão do Recanto das Emas e distribuirão rosas brancas aos motoristas, em homenagem às vítimas. Maria dos Reis Osório dos Santos, 45 anos, e Priscila Santos Nascimento, 21, morreram depois de o carro em que estavam ser atingido duas vezes por uma Toyota Hilux, guiado por Josivan Oliveira Silva (leia Memória).

No dia do acidente, o motorista da caminhonete se recusou a fazer o teste do bafômetro, mas ele apresentava sinais de embriaguez e odor etílico, de acordo com os policiais que fizeram a ocorrência. Por esse motivo, a família decidiu participar da mobilização. "A nossa intenção é conscientizar as pessoas sobre o risco de beber e dirigir para que não ocorra com outras famílias o que houve com a minha”, explica a estudante Michelle Santos Nascimento, 26 anos, moradora do Gama, irmã e filha das vítimas.

O marido de Priscila, o servidor público Marcus Klein, 31 anos, morador da Asa Norte, contou que Josivan teria admitido ter bebido antes de assumir o volante. "Ele ficou menos de 48 horas preso, pagou uma fiança de R$ 62 mil e foi solto antes mesmo do enterro das duas”, revolta-se. Até hoje, Klein se emociona ao falar da mulher. "Ela tinha passado em dois concursos públicos, em 2º e em 5º lugares, tinha sonhos e ainda comemorava as conquistas”, lembra, emocionado.

Imprudência

Após um ano, os familiares de Maria dos Reis e Priscila ainda buscam explicações para tentar entender por que a vida das duas vítimas foi interrompida de forma tão violenta e inesperada. As duas voltavam com Michelle, o namorado dela e uma tia do almoço de Dia das Mães em João Pinheiro (MG). "O que vai ser da nossa comemoração depois de perder essa figura tão especial que é a mãe? Essa data ficará para sempre marcada pela tragédia, fruto da irresponsabilidade e da imprudência de uma pessoa”, desabafa o filho e irmão das vítimas, o jornalista William Santos Nascimento, 27 anos, morador do Gama.

Desde o acidente, a família tem se engajado na luta contra a violência no trânsito. "Apoiamos o movimento Não foi acidente e defendemos uma lei seca ainda mais rígida. Quando vou para casa, passo pelo local do acidente, uma dor invade e acaba com o meu dia. Perdi pessoas que eram tudo para mim por causa de alguém irresponsável e imprudente. Ele teve, sim, a intenção de matar”, diz Michelle. "Soubemos que ele apresentou um laudo psiquiátrico e está afastado do trabalho, mas quem precisa de atenção somos nós, que perdemos duas vidas da nossa família. Nós é que estamos abalados”, completa.

Marcus lembra que o local da colisão é bem iluminado e tem pardais ao longo de toda a via. "O laudo apontou que ele (Josivan) estava a 105km/h, mas sabemos que esses medidores sempre abaixam um pouco a velocidade. Aqui é uma reta, e o trânsito estava lento devido a um outro acidente. Ele veio igual a um trem, não havia nem marca de freios na pista”, reclama. "Os policiais constataram que ele tinha bebido. Ele não viu o obstáculo nem reagiu. A gente espera que ele vá a júri (popular). Nada vai devolver a vida delas, mas não é justo ele pagar com cesta básica”, finaliza Michelle.

Procurado pelo Correio, o advogado de Josivan, Cleber Lopes, informou que o cliente está até hoje sob tratamento psiquiátrico e não tem condições de falar sobre o acidente. "É um homem de bem, com a vida voltada para o trabalho e para a família, e a defesa tem absoluta certeza de que não houve crime doloso contra a vida. Se houve culposo, é algo que pode ocorrer a qualquer dia, a qualquer hora e com qualquer pessoa. A manifestação dos familiares é muito mais válida para a população do que tentar condená-lo por homicídio doloso, como o Ministério Público tem buscado”, alega.

Abaixo-assinado

A campanha foi idealizada por Rafael Baltresca, que perdeu a mãe e a irmã em acidente de trânsito. As duas foram atropeladas em cima da calçada, em setembro de 2011, ao saírem de um shopping de São Paulo. O motorista estava alcoolizado. Após o acidente, Rafael e os amigos criaram o movimento para tentar mudar as leis brasileiras que tratam do assunto. Ele quer recolher 1,3 milhão de assinaturas para entregar ao Congresso Nacional um projeto de lei a fim de tornar mais rígida as normas vigentes.

Memória

Revólver e latas de cerveja

Maria dos Reis e Priscila voltavam de Minas Gerais acompanhadas de Marta Damares dos Santos, Michelle e o namorado, o corretor de imóveis Fernando Fanuce, 32 anos, morador do Gama, por volta das 21h de 13 de maio do ano passado, quando sofreram o acidente. Fernando conduzia o veículo, um Honda Civic, e, próximo ao balão do Recanto das Emas, começou a diminuir a velocidade devido a um engarrafamento na via. Nesse momento, o carro foi atingido pela Toyota Hilux guiada por Josivan Oliveira Silva. Ele colidiu com o carro da família uma vez, acelerou o veículo e bateu novamente (foto). O engavetamento atingiu cinco carros. Os bombeiros tentaram reanimar Maria dos Reis, mas ela morreu no local do acidente. Já Priscila chegou a ser levada ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos. O motorista e as outras duas ocupantes do Honda Civic não se feriram com gravidade. Pessoas que estavam próximas ao acidente impediram que o condutor da caminhonete deixasse o local. Além de latas de cerveja, policiais encontraram um revólver no carro de Josivan e o autuaram por porte ilegal de arma.