Vale-transporte é vendido ilegalmente nos terminais de Fortaleza

09/10/2014 08:17 - Diário do Nordeste - Fortaleza

Uma atividade ilícita que ocorre há mais de dez anos e ainda assim não é coibida. A venda e a compra ilegal de vale-transporte em Fortaleza, que em 2000 já era exposta pelo Diário do Nordeste, seguem ocorrendo livremente. No Centro e nos terminais de integração da Parangaba e do Antônio Bezerra, a passagem, que custa R$ 2,20, é ofertada por R$ 2,00. No esquema, "cartãozeiros" compram os bilhetes - concedidos pelos empregadores aos trabalhadores - e revendem para os usuários que não possuem o cartão. A prática configura crime de falsidade ideológica para quem usa e também para quem vende.

A reportagem flagrou a venda de forma explícita. No Terminal da Parangaba, os usuários que seguem rumo à entrada do equipamento, na Avenida Silas Munguba, logo deparam-se com vários vendedores. Negociadas a R$ 2,00, as passagens eletrônicas são amplamente compradas pelo público.

Os vendedores concentram de três a cinco cartões nas mãos para revezamento na liberação das passagens e não se inibem de fazer a negociação frente aos profissionais do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) e da Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor). No Antônio Bezerra, a prática é a mesma, na entrada localizada na Rua Demétrio Menezes. Os vendedores, inclusive, deslocam-se sem a menor preocupação até a catraca para efetivar a liberação do passageiro.

Na Praça do Sagrado Coração, no Centro, onde circulam 23 linhas de ônibus no terminal aberto, o número de vendedores chega a 30, distribuídos em toda a extensão do local. Cada passagem eletrônica é adquirida pelos cartãozeiros por R$ 1,10 ou 1,20 e revendida a R$ 2,00. Um cartão é utilizado 15 vezes por dia, devido ao limite máximo de uso estabelecido pelo sistema do Sindiônibus.

Vales de papel, embora em menor proporção, também são comercializados. O preço de aquisição das passagens impressas é superior ao das eletrônicas, variando de R$ 1,50 a R$ 1,70. Elas também são revendidas a R$ 2,00. "Pagamos mais caro no vale de papel, porque com ele não tem como sermos enganados. Com o eletrônico não, o dono pode vender e depois bloquear", explicou um vendedor.

O Decreto Municipal 11.720/2004 regula a fiscalização, o controle, a auditagem a operacionalização dos vales em Fortaleza. Na época em que foi sancionada, a norma estabeleceu que era competência da antiga Etusa, hoje Etufor, garantir essas ações. O Decreto determina ainda que cabe ao órgão designar um profissional responsável para cumprir as funções.

A Etufor, por meio da assessoria de comunicação, explica que executa ação em parceria com o Sindiônibus e conta com o apoio da Polícia. "São realizadas reuniões rotineiras com o Comando de Policiamento da Capital para buscar o apoio no reforço das equipes de fiscalização da Etufor para intensificar a prevenção desse crime", diz a nota.

O superintendente do Vale Transporte do Sindiônibus, Paulo César Barroso, informou que há 1.178.940 vales-transporte - concedidos pela empresa - e 839.382 vales-transporte avulsos - adquiridos pelo cidadão, ativos em Fortaleza. O número é superior aos do Bilhete Único, que entre os convencionais e os de estudante, são 777.090 cartões ativos. Também são emitidos, por mês, 360 mil unidades de vales-transporte em papel.

Paulo ressaltou que o Sindiônibus não tem "poder legal para fiscalizar e coibir a ação". Segundo ele, o Sindicato das empresas, no decorrer dos anos, tem solicitado formalmente a atuação da Etufor, da Guarda Municipal e da Polícia, para barrar o delito, mas "a fiscalização não funciona".

Crime

O advogado criminalista Holanda Segundo esclarece que a prática ilícita de falsidade ideológica fere o artigo 299 do Código Penal, que tem como pena um a três anos prisão. No delito, conforme o advogado, podem ser enquadrados usuários e os vendedores. Porém, quem compra e usa a passagem, fere também o artigo 304 do Código Penal, por fazer uso de documento falso. Neste caso, a pena também varia de um a três anos de prisão.

Em nota, a assessoria da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que "a fiscalização é de responsabilidade da instituição na qual ocorre isso sendo, neste caso, dos fiscais dos terminais de ônibus". Segundo a nota, compra e venda são investigadas pela Delegacia de Defraudações e Falsificações, porém, é necessária a denúncia. No momento, de acordo com a SSPDS, não há nenhuma operação especial em curso para coibir esse tipo de crime.

Fique por dentro

Bilhete Único pode impedir uso indevido

A implantação do Bilhete Único (BU) em Fortaleza trouxe a possibilidade de impedir efetivamente o uso indevido do cartão por pessoas que não sejam titulares dos mesmos. O cadastro biométrico do rosto do usuário, aliado ao equipamento acoplado em cada ônibus/topique, identifica quando não é o usuário que usa o BU.

Após a fraude, as imagens são analisadas pelo sistema e/ou por profissionais do Sindiônibus. Confirmada a irregularidade, o Bilhete é suspenso até que o titular compareça à sede do Sindiônibus e solicite o desbloqueio. Por dia, são bloqueados 100 cartões devido ao uso irregular.

Em caso de reincidência, o BU é bloqueado por três meses e, em seguida, é dobrado o período de suspensão a cada nova ocorrência.