Os jovens e o desinteresse por automóveis. Verdade?

30/10/2021 00:00 -

Luiz Carlos Néspoli (Branco) (*)

Há uma ideia geral circulando nestes últimos tempos de que os jovens não têm mais o mesmo interesse em possuir um automóvel como tinham antigamente e que isso significaria o início de uma mudança cultural. As manifestações precisam estar alicerçadas na existência de alguma pesquisa. As evidências para tal argumento tem se resumido na constatação da redução do interesse pela Carteira Nacional de Habilitação, que de fato diminuiu pela observação objetiva dos cadastros dos DETRANs, ou pela menor venda de automóveis, também constatável nos anuários da ANFAVEA. Há também manifestações em matérias da mídia de que o desinteresse envolve tanto o custo de manter o veículo, como também por razões ecológicas e de novos hábitos mais preocupados com o nosso meio ambiente. Nichos que tentam preencher as inovações. Mas, são impressões. Será que de fato é isso que está acontecendo?

Em busca de alguma evidência que pudesse retratar esse fenômeno e tentar classifica-lo como mudança cultural, nesta reflexão se tenta analisar a evolução da frota de veículos no Brasil e a identificação de suas prováveis causas que poderiam indicar uma correlação mais evidente da diminuição do interesse dos jovens.

A primeira constatação é a comparação da evolução da frota de veículos automotores nos países desenvolvidos com o que aconteceu no nosso país nos últimos 30 anos, usando como indicador a taxa de automobilização, que mede a relação do número médio de habitantes por veículo registrado.  O gráfico, a seguir, mostra que enquanto nos países analisados a taxa se manteve razoavelmente estável, no Brasil ela teve um salto significativo.


Se analisarmos o potencial de vendas de automóveis, o mercado brasileiro era muito promissor se comparado com o de outros países. Nos EUA, muito antes da década de 1990, a taxa era de um habitante por veículo e, a partir de 1990, se manteve estável em 1,3 habitantes por veículos, o maior índice mundial, não surpreendente por ser o país mais automobilizado do mundo.

Nos demais países europeus que pesquisamos, onde não por acaso se concentram também grande parte da indústria de automóveis, também ali os índices se mantiveram estáveis nos últimos 30 anos em torno de 2 habitantes por veículo.

No Brasil, ao contrário, a nossa taxa, que era de 9 habitantes por veículos em 1990, passou para 2 em 2020, mostrando a existência de um potencial de vendas, requerendo, no entanto, condições para que elas pudessem ser realizadas. Mesmo considerando que 30% da frota oficial representam veículos retirados da circulação por falha dos cadastros, recalculando-se o índice de automobilização, eles passariam, respectivamente, para 13,4 hab/veíc em 1990 e 2,8 hab/veic em 2020, este ainda muito próximo do mundo europeu, o que indicaria um potencial de mercado ainda muito maior.

A venda de um bem durável de enorme sofisticação tecnológica e, portanto, de custo elevado, prescinde, antes de tudo, da existência consumidores com renda suficiente para adquiri-lo, além de outros fatores. Como de fato chegamos a dois habitantes por veículo, que fatores afinal contribuíram ou influenciaram para esta mudança?

O gráfico a seguir, ilustra a evolução da população e da frota de veículos no Brasil, de 1990 a 2020, tomando 1990 como base 1 para os respectivos dados. No gráfico se acrescentaram informações sobre a quantidade de montadoras que foram se instalando no país, e algumas outras evidências que podem demonstrar a acentuada venda de automóveis e seu ligeiro declínio nas proximidades do ano 2020.

Observa-se que enquanto a população cresceu em torno de 41%, de 1990 a 2020, a frota de veículos automotores cresceu 575%, o que explica a taxa de automobilização sair dos 9 habitantes por veículo para 2.

O primeiro fator que impulsionou o crescimento da frota foi o início do incentivo do Governo Federal à fabricação dos carros de 1.000 cm3, em 1993, praticamente zerando o IPI, e barateando seu preço, incentivo que se manteve daí para frente por alguns anos, até que não se produzisse mais este tipo de modelo. Em 2001, por exemplo, 70% dos carros vendidos no país eram deste tipo.

O segundo impulso foi o Plano Real em 1994, com o início da estabilização da economia, que resultou numa redução brutal dos índices de inflação e do aumento de renda que veio a ocorrer. O efeito do carro 1.000 e do Plano Real fez a frota aumentar 52% em1998 em relação ao ano base de 1990, o que fez aumentar também o interesse dos fabricantes, que passaram de 4 montadoras para 7 em 1998.

Entre 2001 e 2011, a renda média das famílias cresceu cerca de 30%(1). Não só a renda média aumentou na primeira década deste século como também ocorreu o aumento no prazo de financiamento para compra de automóveis, que chegou a 72 meses em meados da década de 2000. É quando o crescimento da frota dá um dos primeiros grandes saltos de 210% em relação ao ano base e o país passa a contar então com 12 montadoras instaladas no país.

Este impulso segue em frente, com a renda média ainda crescente e a manutenção de prazos longos de financiamento. Em 2012 o Governo Federal zera o IPI para todos os carros e reduz o IOF no financiamento. Esses dois novos fatores, associados aos já citados, provoca um crescimento na frota de veículos de 486% em relação ao ano base, produzindo a maior inclinação da curva do gráfico. O interesse dos fabricantes aumenta e, em 2016 já eram16 deles em solo brasileiro.

A partir de 2015, começa um período de diminuição da venda de veículos, que coincide com as dificuldades de financiamento (juros mais altos), perda de renda media da população a partir de 2019 (10%) e aumento do custo dos veículos (preço de insumos importados). A partir de 2015 a desigualdade aumenta e o coeficiente Gini reduz 10%[1]. Observa-se, no entanto, ainda um crescimento, embora mais suave do que os observados anteriormente, e chega-se em 2020 com um aumento da frota de 575% em relação ao ano base, e agora com 19 fabricantes. ´

Em termos numéricos, a frota era de aproximadamente 16 milhões de veículos, em 1990, e cerca de 107 milhões em 2020. Ressalta-se que as classes de menor renda têm todo o direito de adquirir um automóvel e de obter uma CNH (cujo custo é elevadíssimo), especialmente para aqueles que são motoristas profissionais ou que precisam do veículo para seu trabalho. Não por boniteza, só, mas por precisão, como diria Guimarães Rosa.

Os incentivos governamentais para facilitar a venda de automóveis ao longo dessas três décadas são evidentes. Esses impulsos governamentais, associados ao poder de compra da população e aos prazos e facilidades de financiamento, explicam o resto da façanha. Não é por acaso que o país sai de 4 fabricas de automóveis para 19 em 30 anos. Houve mercado e facilidades. Mas, continua (e continuará) existindo condições semelhantes ainda?

Assim, o Brasil, ao final de 30 anos, chega finalmente à taxa de automobilização semelhante a dos principais países europeus. Pelas características desses países, em que o transporte público tem relevância na divisão modal das viagens, é certo pensar que se a taxa de automobilização ao longo dessas três décadas se mantiveram estáveis, não será no futuro que será reduzida, especialmente com a forte tendência de metas ambientais mais rigorosas de descarbonização e a maior consciência ambiental dos jovens europeus. A resposta parece ser não.

Mais certo, a contrário, é de que manteremos o mesmo índice no futuro. É razoável admitir que o mercado de vendas crescentes de automóveis em expansão já não tem e não terá o mesmo ritmo e é muito pouco provável que o Brasil seguirá rumo à taxa de automobilização dos Estados Unidos. 

Se considerarmos que há muito mais semelhança entre nosso país e os países europeus no uso do transporte público, e ainda que nossa renda média de população é muito menor que a deles, e que nossa recuperação econômica, que já vinha muito lenta na última década, continuará muito lenta nos próximos anos, o que se espera é o índice se estabilizar em 2 habitantes por veículo, sendo bastante otimista.

Parece mais factível que a mudança cultural dos jovens tenha mais correspondência com as condições conjunturais do que com a filosofia de vida ou em razão das inovações postas no mercado, que são mais aderentes aos jovens de maior renda familiar.

Seja pela conjuntura econômica, ou por razões culturais, no entanto, isso será melhor para as cidades brasileiras. Ainda, se ao lado desta tendência do não desejo do automóvel (ou da não possibilidade de satisfazer o desejo de ter) houver investimentos no transporte público – infraestrutura e qualidade - o que ocorreu lamentavelmente quatro vezes menos do que para o transporte individual no Brasil, e também que os planos sigam a política nacional de mobilidade urbana, é para lá que os jovens deveriam ir, mesmo que utilizando meios complementares. 

Sobretudo se os governos mudarem concretamente seus objetivos na mobilidade urbana.

(1) Desigualdade de renda no Brasil de 2012 a 2019 - Rogério J. Barbosa (Usp), Pedro H. G. Ferreira de Souza (Ipea) e Sergei S. D. Soares (Ipea) - http://dados.iesp.uerj.br/desigualdade-brasil/ - 29/10/2021

(*) Superintendente da ANTP