09/03/2014 07:13 - Estado de Minas
JEFFERSON DA FONSECA COUTINHO
Ainda que com 40 anos de atraso – O BRT já não é novidade
desde 1974 no Paraná –, o novo modelo de transporte coletivo de Belo Horizonte
já dá alguns sinais de outros tempos para a relação do cidadão com o trânsito
ruim de doer na capital.
Valdivino, de 29 anos, Carteira Nacional de Habilitação
(CNH) E – a mesma exigida para carretas –, não esconde o entusiasmo por ter
inaugurado a linha 82, às 4h20 de ontem. No meio da tarde, quase dez horas de
serviço depois, a empolgação do Valdivino na condução do carro 20480, tinindo
de zero, é de dar gosto.
O motorista e a companheira de Move, a cobradora Maria de
Fátima, dão toda a atenção possível aos passageiros, curiosos com o carrão de
18,5 metros. Ele fala com orgulho do câmbio automático, do ar-condicionado e
dos 30 minutos gastos da Estação São Gabriel ao Bairro Funcionários.
O rapaz, ao fundo, só de farra aciona o sinal de parada. No
ponto, não desce e ainda faz graça para os amigos. Leva bronca da cobradora:
"Não faz isso. Você prejudica a viagem. Nosso trabalho é sério”.
Outro profissional do volante, a passeio na linha 83 para
conhecer o tão esperado busão, considera que o trabalho vai ser bem menos
estressante com o novo modelo de 360 cavalos. "Quando tiver mais faixas
exclusivas vai melhorar ainda mais”, avalia.
A senhorinha de jeans e brincos enormes, não se contenta:
"Ah, é isso? Tanta quebradeira pra esse frio que deixa a gente gripada?” A
filha que a acompanha participa: "Até que tá bom. Quero ver é quando estiver
lotado”. Mais à frente, o menino traquina apronta com o cinto de segurança da
área reservada para bicicletas. Mexe daqui, dali, até que leva pito do velho na
cadeira de lado.
Com a chuva, a plataforma coberta da Avenida Paraná vira
assunto entre homem e mulher com bebê de colo. "Todo ponto de ônibus tinha que
ser assim. Sempre falei isso”, diz o sujeito. A mocinha vestida de verde, com
"Posso ajudar” anotado do colete de serviço, aborda o senhor de panfleto na
mão. Ele corta a simpatia: "Não precisa! Estou só conhecendo essa maravilha que
tão falando”.
O homem de ônibus na cabeça e capa verde de super-herói é
atração para a meninada. É o Mr. Bus, personagem conhecido da cena do
transporte público na cidade. Ricardo Teixeira, de 48, desde criança tem paixão
por coletivos. Tanto que virou profissional no assunto. Com ele, não há
informação sobre o trânsito que fique sem resposta.
Muita gente de câmera na mão para não perder o Move da
história. Um dia para não ser esquecido. "Vem, filhão! Vamos tirar uma foto
para colocar no Facebook”, diz o pai coruja. Fernando é separado e passa os
finais de semana com o pequeno Matheus, de 5. "Tenho moto, mas é só quando não
tô com o Matheus. Agora, com o BRT, vai melhorar pra gente”, sorri.
"Para quem não tem metrô, serve”, diz a mulher para a colega mais jovem. O carro da linha 83D deixa a estação da Avenida Paraná com uma das portas abertas. Na esquina com Rua Tamoios, o moço aproveita a oportunidade para livrar-se da chuva e economizar R$ 2,65. "Obrigado!”.